sexta-feira, 20 de setembro de 2013

O Segundo Cerco de Constantinopla




O dia 15 de agosto marca o aniversário da vitória de Constantinopla sobre os invasores muçulmanos, no evento que os historiadores comumente chamam de "O Segundo Cerco de Bizâncio," ocorrido nos anos de 717 a 718. Antes deste ataque maciço, os muçulmanos tinham atacado os domínios do Império Bizantino durante quase um século. O Objetivo final dos muçulmanos era a conquista de Constantinopla – por razões políticas e religiosas.

Politicamente, o Islã não tinha rival, a não ser os odiados "cristãos" de Bizâncio, conhecidos por várias denominações - incluindo al-Rum (os romanos), al-Nassara (o nazarenos) e, mais notoriamente, al-Kilab (os "cães"). A parte leste do Império Sassânida já havia desaparecido, e a Pérsia estava subordinada ao califado. Só os "adoradores da cruz" - como os cristãos eram, e ainda são, depreciativamente conhecidos – sobravam como adversários na bacia do Mediterrâneo oriental.

Mais importante ainda, Constantinopla – a partir de uma perspectiva teológica – simplesmente tinha que ser conquistada. Desde o início, islão e jihad eram indissociáveis. A jihad, ou "guerra santa", que conquistou a Arábia e Pérsia, e logo em seguida a Síria, o Egito e todo o norte da África – estes últimos  territórios anteriormente Bizantinos – foi  considerada uma obrigação religiosa, ou, como mais tarde codificada na lei sharia, uma fard kifaya: uma obrigação comum no corpo dos crentes, para ser respeitada e cumprida de modo tão importante quanto os Cinco Pilares do Islão. Como dito por Ibn Khaldun, um famoso historiador muçulmano do século 14: "Na comunidade muçulmana, a jihad é um dever religioso, por causa do universalismo da missão muçulmana e a obrigação de converter todos ao islão, seja pela persuasão ou pela força. . . . o islão está sob a obrigação de ganhar o poder sobre as outras nações".

Este conceito de jihad como guerra santa institucionalizada foi articulada e codificada dentro da visão de mundo do islão por "teólogos-guerreiros" (mujahidin-fuqaha) vivendo e lutando ao longo da fronteira bizantino-árabe (como o mujahid Abdallah bin Mubarak, autor da obra seminal Kitab al-Jihad, ou "Livro da Jihad").

O Cerco de Constantinopla, das Cronicas de Constantino Manasses

A visão que prevalecia era a de que, enquanto Constantinopla resistisse, a Cruz desafiaria a Crescente. Este é um ponto literal, pois símbolos tem um papel importante nestas guerras. Menos de um século antes, durante a importante Batalha de Yarmuk (ocorrida no ano 636), onde os muçulmanos esmagaram os bizantinos, levando a conquista da Síria, um muçulmano reclamou ao Califa, dizendo "O cachorro dos Romanos [o Emperador Heráclito] tem nos frustrado muito com a presença omnipresente e constante da cruz!"

Com certeza, é difícil não super-enfatizar a natureza religiosa destas guerras – que, apesar de codificada na Sharia, tornou-se algo alienígeno na epistemologia ocidental, que tende, de modo cínico, desconsiderar o papel da fé. A afiliação religiosa era o modo primário de se identificar no mundo antigo – e não raça, etnia ou nacionalidade, que são conceitos modernos. Este fato é um indicador do papel central da fé, e mesmo o emprego de termos tais como "Bizantino" são anacrônicos, pois ele identifica "cristãos." 

Por estes motivos, a conquista de Constantinopla, tomaria um caráter de proporções apocalípticas na literatura islâmica. Desde que o profeta Maomé enviou uma mensagem ao Emperador Eráclito, no ano 628, chamando-o para se converter ao islamismo, usando da famosa asserção aslam taslam – que signigfica "submita-se [torne-se muçulmano], e você terá paz" – e o convite foi recusado, Constantinopla tornou-se o arqui-rival do islão. Diz-se que Maomé teria profetizado que a capital cristão iria – de fato, precisaria – ser conquistada pelo islão, com bençãos e recompensas para os muçulmanos que cumprissem a profecia. A grande cidade cairia, mas apenas 800 anos depois, em 1453, dando a Europa o tempo necessário para amadurecer, se fortalecer e se unificar.

Começando com a participação de Maomé na Batalha de Tabuk (ano 630), registrada no Alcorão, os muçulmanos castigaram os bizantinos por décadas, fechando o cerco em Constantinopla. Com o começo da Dinastia Umaída (no ano de 660) – que também trouxe o fim à primeira fitna ("guerra civil" muçulmana), que resultou na rachadura entre sunitas e shiítas – o centro do poder se mudou de Medina para Damasco, que havia sido recentemente conquistada, e que se situava muito mais próximo do grande prêmio: Constantinopla.

No começo dos anos 700, a velocidade das conquistas muçulmanas diminuiu. Ainda existiam muitos desafetos do lado muçulmano, particularmente os perdedores da primeira fitna: os kharajites e os shiítas, sendo os primeiros uma seita particularmente impiedosa e violenta. Para prevenir a erupção de uma nova guerra civil, organizou-se uma grande campanha contra o inimigo comum, os cristãos infiéis.

Todos esses fatores – a consolidação do poder muçulmano Umaída em Damasco, uma desaceleração das conquistas islâmicas, e a necessidade de direcionar a belicosidade e o descontentamento das diversas seitas muçulmanas, isso sem mencionar a inimizada sem-fim contra os infiéis – encorajaram o califado a usar de todo o seu poderia contra o seu arqui-inimigo. Constantinopla já havia sido sitiada, sem sucesso, várias vezes antes, mais notavelmente durante o Primeiro Sítio a Constantinopla, que durou 4 anos (674-678), que fracassou frente às colossais muralhas da cidade.   

Foi então que, com a sua ascenção ao Califado como novo líder supremo, em 715, Suleiman decidiu que tinha chegado a hora para uma ofensiva, massiva e total, contra Constantinopla. Os bizantinos chegaram a oferecer o pagamento de um tributo, mas nada que não fosse a capitulação total para o islão seria aceito. Um exército de proporções mastodônticas de 200 mil homens foi organizado, sob o comando de Maslama, o irmão de Suleiman (o fato do Califa ter enviado o seu próprio irmão serve como indicação da importância desta campanha). Suleiman teria dito para o seu irmão "Permaneça lá (sitiando Constantinopla) até que você a conquiste ou eu o chame de volta."

Uma crônica da época indica o tamanho enorme do exército que foi agrupado. Dois anos antes do sítio, em 715, uma notícia chegou aos cristãos que os muçulmanos estavam cortando uma quantidade inumerável de árvores no Líbano, a terra do cedro, de modo a construir milhares de navios de guerra para uma expedição. Este fato já foi suficiente para causar uma mini-guerra na Ilha de Rodes, quando os bizantinos enviaram um exército para interceptar a força expedicionária muçulmana. Um embaixador bizantino voltando de Damasco relatou que "os Sarracenos estão preparando armamentos para terra e mar, tão grande em número que transcende a experiência do passado, ou o que se julga possível no presente." Em resumo, 120 mil homens da infantaria e da cavalaria, e uma força naval de 80 mil homens, estavam seguindo para Constantinopla.

Maslama, comandando a força terrestre, esmagou e passou o fio da espada em todos no seu caminho. Mulheres e crianças foram escravizadas, e milhares de homens foram crucificados. Ao passarem por aquela extensão desolada e de-ninguém entre os impérios bizantinos e umaídas, frequentadas por tribos nomádicas, os muçulmanos atacaram, mataram e queimaram tudo e todos no seu caminho.

De acordo com o renomado cronista muçulmano al-Tabari, "Os habitantes [cristãos] da Anatólia oriental se encheram de um terror de um tipo que eles nunca tinha experimentado antes. Tudo o que eles viam, em seu meio, eram muçulmanos gritando ‘Allahu Akbar!’ Alá plantou terror nos seus corações. … Os homens foram crucificados no curso de 24 km." Mais tarde, al-Tabari explica que as forças muçulmanas tiveram sucesso devido à sua aderência aos versos do Alcorão, tais como 8:60: "Agrupe contra eles [os infiéis] todos os homens e cavalos sob o seu comando, de modo a que você possa aterrorizar o coração dos inimigos de Alá, e os seus inimigos. " (Veja também, Alcorão 3:151). (Quase mil e quinhentos após a compilação do Alcorão, os modernos mujahidin – "guerreiros sagrados" que gostam de exortar os seus seguidores ao se referirem a estas batalhas de certo modo arcanas – continuam a contar com essses versos e suas exegeses para "atterrorizarem" os "inimigos de Alá.")

Para piorar a situação, enquanto Maslama marchava em direção a Constantinopla, subjugando tudo em seu caminho, o próprio império cristão foi dividido internamente – como evidenciado pelo fato de que, entre 713 e 717, dois imperadores tinham ido e vindo.

Entra em cena Leo III – também conhecido como Leo, o Isaurian, Leo, o árabe, e, mais notoriamente, Leo, o Herético. Há pouca dúvida de que a vitória bizantina sobre os muçulmanos têm uma grande dívida para com Leo, que faz a sua aparição inicial nas páginas das crônicas como um general e estrategista – vivendo de acordo com a palavra grega para "general", strategos.

Nascido como Conon na Síria moderna (daí a sua denominação de "árabe"), Leo, estacionado na Anatólia, encontrou cedo as forças da Maslama. Todas as fontes de registro histório retratam Leo jogando uma espécie de jogo de gato-e-rato com o irmão do califa, enganando-o de várias maneiras. Tabari simplesmente conclui que Leo enganou Maslama "como se ele [Maslama] fosse um brinquedo bobo de uma mulher."

De qualquer forma, Leo ganhou o tempo e vantagem necessárias para ir de volta para Constantinopla, onde, como o homem mais capaz de defender o império daquele iminente ataque, ele foi logo proclamado imperador. Sabedor que as fortes muralhas do império tinham resistido inúmeros cercos durante séculos, Leo sabia que, desde que as comunicações marítimas estivessem abertas, a cidade estaria relativamente segura. O problema era que, como Maslama estava chegando com sua força terrestre de 120.000 soldados, existiam os 1.800 navios, com os adicionais 80 mil combatentes, que estavam se aproximando do Bósforo. A cidade seria cercada.

Em 15 de agosto, Maslama estava de fronte das muralhas da cidade, cercando-a com várias máquinas de guerra; a sua marinha chegaria duas semanas depois, em 1 de setembro. Depois de algumas tentativas infrutíferas para romper os muros, Maslama resolveu reduzir a cidade através de um bloqueio, cujo sucesso dependeria da sua marinha.

Uma leitura atenta das fontes históricas revela que dois fatores importantes salvaram o império bizantino: a inexperiência árabe na guerra no mar, e a engenhosidade grega. Os navios de guerra árabes chegando ao Bósforo foram sobrecarregados com equipamento, e eram, em geral, pesados. Para atrair os navios inimigos, Leo, em outro estratagema, abaixou a corrente pesada que normalmente guardava o porto. "Mas enquanto eles hesitavam se deviam aproveitar a oportunidade. . . os ministros da destruição estavam à mão": Leo tinha enviado a sua frota, com a arma secreta do dia, o "fogo grego" (uma composição incendiária projetada por meio de sifões), que conflagrou os navios muçulmanos em "destroços em chamas." "Alguns deles, ainda em chamas, colidiram com a parede do mar, enquanto outros afundaram, com os homens e tudo o que havia dentro."

Arte medieval representando o fogo grego

Logo após esta derrota crucial, o ambicioso califa Suleiman, que tinha a intenção de cumprir a profecia de Maomé, e conquistar Constantinopla, morreu de "indigestão" (de acordo com os cronistas, devorando dois cestos de ovos e figos, seguido de medula e açúcar para a sobremesa) . Para piorar a situação, o novo califa, Omar II, parecia, pelo menos inicialmente, não ser tão atento às necessidades do exército de Maslama. O inverno chegou, e os bizantinos retiraram-se para sua cidade fortificada, deixando os elementos para lidar com o acampamento muçulmano. "Um dos invernos mais cruéis que alguém pudesse lembrar" chegou, e, "por cem dias, a neve cobriu a terra."

Ainda assim, o irmão de Maslama, o falecido califa, lhe havia ordenado "ficar lá [em Constantinopla] até conquistá-la ou até eu o chamar de volta." Como nada tinha acontecido, a última opção não era mais possível. Tudo o que Maslama podia fazer era esperar e garantir aos seus magros e  desesperados homens: "Em breve! Logo mantimentos vão estar aqui!" Nesse meio tempo, os búlgaros e outras tribos nomádicas turcas, que ainda não tinham abraçado o islão, começaram a saquear o acampamento muçulmano.

Na primavera, reforços finalmente vieram, por terra e mar. Não foi o suficiente. As geadas e a fome atingiram o enorme exército de Maslama, a tal ponto de que o canibalismo foi utilizado. O cronista grego Teófanes relata: "Alguns dizem mesmo que eles colocaram homens mortos e os seus próprios excrementos em panelas, amassaram isso, e comeram. Uma doença semelhante à praga desceu sobre eles, e destruiu uma incontável multidão. "A plausibilidade da segunda frase oferece suporte para a improvável primeira frase. Um cronista independente, Michael, o Sírio, escreveu: "A fome oprimia tanto que eles estavam comendo os corpos dos mortos, as suas própiras fezes, e outras porcarias."

Do ponto de vista do novo califa, o fato que uma força tão grande, e anos de mobilização, já estavam às portas da cristandade, tornou muito difícil para simplesmente desistir. Como califa – sucessor do profeta-guerreiro e dos seus companheiros, que tinham subjugado grande parte do mundo conhecido – ele não podia aceitar a derrota tão facilmente. Enquanto o exército permanecia, uma nova marinha, composta de duas expedições de guerra, uma de Alexandria, Egito, e outra do norte da África – cerca de 800 navios no total – fez o seu caminho para Constantinopla. Sob o manto da noite, eles conseguiram furar o bloqueio do Bósforo, ameaçando cortar todas as comunicações da cidade.

Além disso, os comandantes muçulmanos estavam mais temerosos do fogo grego, e mantiveram distância. Consciente disso, o exército de Maslama, um pouco recuperado devido a suprimentos e novos conscriptos, foi mais uma vez em movimento, sitiando a cidade com com uma fúria selvagem, como que desejando vingança das condições abomináveis que eles haviam passado. Parecia que o começo do fim, embora atrasado, tinha finalmente chegado.

A salvação de Constantinopla veio da fonte menos esperada: a tripulação egípcia dos navios de Alexandria, os cristãos coptas. Como a grande maioria dos homens que lutavam para o califado, os mujahidin, já estavam enfrentado o inimigo, o califa não teve escolha a não ser confiar nos cristãos dhimmis (segunda-classe ) conscritos como reforços. Para grande desgosto do califa, no entanto, os coptas fugiram todos para Constantinopla durante a noite, aclamado o imperador cristão.

Teófanes escreve que, como os coptas apreenderam barcos leves e fugiram em deserção para a cidade, "o mar parecia totalmente feito de madeira." Não só as galeras de guerra muçulmanas perderam uma boa parte da mão de obra, mas os egípcios deram a Leo informações exatas sobre os navios e os planos dos muçulmanos. Aproveitando disso, Leo  mais uma vez lançou os navios incendiários da cidadela. Considerando a perda de um contingente importante da frota muçulmana após a deserção dos coptas, o confronto foi mais uma surra do que uma batalha.


Uma ilustracão moderna mostrando a ação do fogo grego

É interessante notar que esse fato pouco conhecido – que os coptas abandonaram as frotas muçulmanas em massa para unir forças com o imperador cristão – indica que, desde o início, a vida cristã sob o domínio muçulmano não era tão tolerável como a história revisionista de mais tarde (que alega que os coptas do Egito acolheram os muçulmanos como "libertadores" do jugo bizantino) tende a narrar.

Buscando capitalizar sobre esta vitória naval e o entusiasmo dos cristãos, Leo perseguiu as frotas muçulmanas em retirada por terra, e muitos muçulmanos tiveram a sua retirada cortada. Simultaneamente, os búlgaros vizinhos – que, embora ocasionalmente hostis ao império cristão, não tinham amor para os novos invasores, os muçulmanos – foram persuadidos por "presentes e promessas" de Leo a atacarem e, finalmente, matarem até 22 mil homens, dentre o exausto e faminto exército de Maslama.
https://youtu.be/BY7dbnxVmIo ok
Vídeo ilustrando a ação dos búlgaros contra os muçulmanos invasores

Para piorar a situação "uma notícia foi plantada, a de que os Francos, as nações desconhecidas do mundo latino, estavam se armando por mar e terra em defesa da causa cristã, e sua ajuda formidável era esperada. " (passariam mais três séculos antes dos Francos e muçulmanos se envolver em um conflito militar, de mais de dois séculos de duração, que viria a ser conhecido como as Cruzadas.)

Neste momento, até mesmo o califa distante havia percebido que tudo estava perdido. Maslama, que só poderia ter recebido a convocação com alívio, foi chamado de volta, e, em 15 de agosto – de acordo com a maioria dos cronistas, precisamente um ano depois do dia em que começou – o cerco de Constantinopla foi levantado
.

Ainda assim, os problemas dos muçulmanos estavam longe de acabar. A natureza não tinha ainda terminado de lidar com eles. Diz-se que uma terrível tempestade no mar aniquilou os navios em retirada, de tal modo que dos 2.560 navios que partiram em retirada de volta para Damasco e Alexandria, apenas dez restaram – e destes, metade foi capturada pelos bizantinos, restando apenas cinco navios que conseguiram voltar para o califado, e relatar as calamidades que lhes haviam acontecido (o que pode ter sido o motivo que levou os cronistas árabes, curiosamente, a manterem um silêncio sobre os detalhes desses eventos, e talvez o motivo pelo qual se passariam vários séculos antes de Constantinopla ser novamente atacada de forma semelhante).

Esta tempestada marítima também levou à crença popular de que a providência divina tinha intervindo em favor da cristandade, com historiadores referindo-se a 15 de agosto como uma "data ecumênica " Enquanto isso, no mundo islâmico, esta derrota, tremores de terra na Palestina, e a morte do califa Omar II em 720 (tendo sido califa no ano 100 do calendário islâmico ) pressagiava um fim apocalíptico para o mundo.

Do original de 200.000 muçulmanos, que partiram para a conquista da capital cristã, e os reforços adicionais da primavera, apenas cerca de 30.000 conseguiram voltar vivos. Por causa disso, com vingança, antes de morrer, o califa Omar, amargo e vingativo, que havia falhado em subjugar os cristãos ao longo do caminho, foi rápido para projetar a sua ira sobre os cristãos que viviam sob a autoridade islâmica, os dhimmis. Ele forçou muitos delas a se converterem ao islão, matando aqueles que se recusaram.

É difícil não enfatizar a importância desta batalha. O fato que Constantinopla foi capaz de repelir as hordas do califado é um dos momentos mais decisivos da história ocidental. Se Constantinopla tivesse caído, a Europa da “Era Negra” – uma Europa caótica e sem liderança – teria sido exposta aos invasores muçulmanos. E, se a história é um indicador, a última vez que uma grande extensão de território foi deixada aberta de fronte a espada do islão, a milhares de quilômetros foram conquistados e consolidados em poucas décadas, resultando no que hoje é conhecido como Dar al-Islam, ou o "mundo islâmico".

Na verdade, esta vitória é muito mais significativa do que o seu mais famoso contraparte ocidental, a vitória dos Francos sobre os muçulmanos na Batalha de Tours, os primeiros liderados por Charles Martel (o "Martelo"), em 732. Ao contrário da Batalha de Tours, que, de um ponto de vista muçulmano, foi, em primeiro plano, parte de uma campanha dedicada à rapina e pilhagem, e não conquista – evidenciado pelo fato de que, após a batalha, os muçulmanos fugiram – o cerco de Constantinopla foi dedicada à um objetivo de longa duração, teve o apoio total do califado, e utilizou um poderia em termos de pessoas muito maior. Se os muçulmanos tivessem vencido, e considerando que Constantinopla era o baluarte do flanco oriental da Europa, não teria havido nada para impedi-los de tornar a Europa em um apêndice do noroeste do Dar al-Islam .

Nem deve o arquiteto desta grande vitória ser esquecido. O historiador bizantino Vasiliev conclui que "por sua resistência bem sucedida, Leo salvou não só o Império Bizantino e o mundo cristão oriental, mas também toda a civilização ocidental."

No entanto, fiel às vicissitudes e ironias da história bizantina – a palavra não veio a significar "complicado " por nada – no momento em que Leo morreu "nas histórias ortodoxas ele foi representado como algo um pouco melhor do que um Saraceno" (daí a famosa denominação, "Leo, o Herético"), devido à controvérsia iconoclasta. Se Charles Martel seria imortalizado como o avô heróico do primeiro Sacro Imperador Romano, Carlos Magno, seria a herança de Leo que deveria ser tudo, menos anatematizada – um fato lamentável que contribui para a negligência histórica desta brilhante vitória.

Artigo originalmente publicado em 15 de agosto de 2013 no National Review Online.


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