domingo, 25 de janeiro de 2015

Escravidão islâmica: mamelucos e janízaros (e o devshirme)


José Atento
Neste artigo, eu discuto a questão da escravidão islâmica no contexto do sequestro de não-muçulmanos para, após convertidos à força, serem obrigados a se tornarem soldados. Eu também apresento o sistema de devshirme, praticado pelos turcos-otomanos sobre as comunidades cristãs que tiveram a infelicidade de ficarem dentro deste império. 
A escravidão islâmica, iniciada com o próprio Maomé, é uma característica marcante da civilização islâmica, fato que, lamentávelmente, se manifesta até os dias de hoje. Ela tem se manifestado de diversos modos. Uma das manifestações da escravidão islâmica foi a de formar exércitos compostos por escravos, na verdade, não-muçulmanos (notadamente cristãos) que viviam nos territórios ocupados pelos muçulmanos, e que eram retirados das suas famílias ainda pequenos, levados às madrassas e convertidos (à força) para o islamismo, e treinados para serem soldados cruéis.

Existem dois exemplos disto na história, os mamelucos e os janízaros.

Estas duas manifestações tem algumas semelhanças importantes, pois em ambas os escravos eram homens jovens e sadios, retirados das suas famílias e terras cristãs, o que diminuia a possibilidade de revoltas que ameaçassem a integridade territorial dos impérios islâmicos. Outro fator importante é que estas tropas eram leais ao governo central, o que permitia que a ordem fosse mantida contra xeiques, cujas tropas, formada por muçulmanos locais, eras geramente mais fiéis a eles do que ao sultão ou califa.

Essa é uma tática usada em diversos eventos na história. Veja bem. No caso de algum comandante militar local conspirar contra o governo central, seria difícil resolver o conflito sem que a nobreza local fosse afetada, pois esta estaria ligada a esse comandante por laços familiares ou culturais, e as tropas locais acabariam defendendo o comandante, e não o sultão ou o califa. A vantagem de se usar tropas-escravas é que elas eram compostas por "estrangeiros." Além do mais, por possuirem uma condição social o mais baixo possível na sociedade, não podiam conspirar contra o governante central (sultão ou califa) sem correrem o risco de serem punidos.

Mamelucos

Antes de mais nada, a palavra mameluco na língua portuguesa tem dois significados. Nós estamos mais acostumandos a usá-la para nos referirmos a mameluco, ou caboclo, como um indivíduo que possui ascendência indígena e branca, ou seja, mestiço ou filho de branco com índio. O sentido da palavra neste artigo é outro, os "mamelucos islâmicos."

Mamelucos, no contexto da civilização islâmica, eram escravos que serviam a seus senhores como pajens ou criados domésticos, tendo sido usados também como soldados, em algumas situações, por califas muçulmanos e pelo Império Otomano. Nessa condição, converteram-se numa casta militar que chegou a exercer o poder em alguns países, como Egito e Índia.

A palavra "mameluco" vem de uma palavra árabe que significa "propriedade" ou "escravo de propriedade do rei." A rigor, é uma denominação árabe para escravo.

Os primeiros mamelucos que se tem notícia foram aqueles que serviram os califas abássidas em Bagdá no século IX. Os Abássidas os tomavam das famílias não muçulmanas capturadas durante incursões militares em áreas que incluiam a Anatólia (atual Turquia), o leste europeu e o Cáucaso. Com o passar do tempo, os escravos que eram tornados mamelucos vinham predominantemente da Geórgia e norte do Cáucaso, eslavos, gregos, albaneses, e demais oriundos de outras regiões dos Balcans.

Após converterem-se ao Islão, os mamelucos deixavam de ser, tecnicamente, escravos, porém não ganhavam a liberdade. Ao contrário, eles eram treinados para serem soldados de elite, incluindo cavalaria. Apesar de não serem mais formalmente escravos, após receberem treinamento militar e religioso, eles eram obrigados a servir ao sultão ou califa, e eram mantidos por ele como uma força autonoma de elite para guerrear ou debelar rebeliões.

Um parêntesis para um comentário interessante. O Islão proibe que muçulmanos combatam entre sí. Isto é algo retórico, pois ao longo da história ele têm se combatido (desde disputas de sucessão, territorial, e, o pior de tudo, para ver quem é mais fiel aos ensinamentos de Maomé). Uma tropa de elite totalmente dedicada ao governo central pode ser muito útil em um momento de aperto.

Algumas vezes, os mamelucos ascenderam a posições de influência no império. Seguindo a máxima "quem com ferro fere, com ferro será ferido",  os mamelucos tornaram-se uma casta militar poderosa e, em mais de uma ocasião, tomaram o poder para si mesmos.

Exemplos de dinastias mamelucas:
  • Dinastia Corásmica na Pérsia (1077–1231)
  • Dinastia Mameluca de Delhi (1206–1290)
  • Sultanado Mameluco do Cairo (1250–1517)
  • Dinastia Memeluca do Iraque (1704–1831, sob o Iraque Otomano)
Janízaros 

Tropa de elite dos turcos otomanos,composta por cristãos que eram sequestrados ou tomados como pagamento de imposto e criados sob rigorosa educação militar e religiosa. A constituição dos janízaros constitui-se em um dos mais escandaloso capítulos da História, pois ela se baseou no sistema conhecido como Devşirme, que iremos chamar de devshirme.

Devshirme: seres humanos (não muçulmanos) são usados como mercadoria para pagamento de imposto. 

Devshirme, que significa "coleta" em turco, também conhecido como "imposto de sangue" ou "tributo de sangue", era o pagamento de imposto usando-se seres humanos como mercadoria. Era uma prática anual, através da qual o Império Otomano raptava meninos (entre 6 e 14 anos), filhos de seus súditos cristãos nas aldeias da Anatólia e dos Balcãs. Estes meninos eram convertidos ao Islão com o objetivo principal de selecionar e treinar as crianças mais capazes para o serviço militar, sendo algumas delas direcionadas ao serviço civil do Império.

De acordo com o historiador militar Michael Antonucci e historiadores econômicos Glenn Hubbard e Tim Kane, os administradores turcos vasculhavam suas regiões (mas especialmente nos Balcãs) a cada cinco anos para apreender os filhos mais fortes de súditos cristãos do sultão. Estes meninos (geralmente entre as idades de 6 e 14) eram então retirados de seus pais e entregues a famílias turcas nas províncias para aprender a língua e os costumes turcos, e as regras do Islão. Os recrutas eram doutrinados para o Islão, forçados a circuncisão e supervisionados 24 horas por dia por eunucos. Eles eram submetidos a severa disciplina, sendo proibidos de deixar a barba crescer e se casar, tornando-se uma especialidade diferente de soldado. Como resultado, os janízaros eram tropas extremamente bem disciplinadas, e tornaram-se membros da classe askeri, os cidadãos de primeira classe ou classe militar. A maioria eram de não-muçulmanos, porque não era permitido escravizar um muçulmano. [ Hubbard, Glenn and Tim Kane. (2013). Balance: The Economics of Great Powers From Ancient Rome to Modern America. Simon & Schuster. pp. 152–154. ISBN 978-1-4767-0025-0.]

O devshirme foi o imposto jizya (cf. Alcorão 9:29) pago com vidas humanas, retiradas à força do seio das suas famílias.

(Veja o "direito dos dhimmis" imposto sobre eles pelo Califa Umar. A condição de subordinação dos dhimmis é conhecida como dhimitude)

A figura abaixo é uma representação da recolha anual de crianças cristãs, devshirme. Em um sistema de tributo humano, os meninos das comunidades dhimmi do Império Otomano eram escravizados, e vendidos ou convertidos ao islamismo, e treinados para servirem como janízaros do exército do sultão. Uma minoria tornava-se também administradores. Nesta cena, ocorrendo em algum lugar na região dos Balcãs, um grupo selecionado de meninos cristãos, vestidos de seus novos uniformes vermelhos, aguardam o começo da viagem sob o olhar atento de um guarda, enquanto que funcionários contam dinheiro e redigem listas de nomes. De um lado, uma mãe e seu sacerdote protestam com um oficial janízaro, uma vez que ele próprio foi um menino devshirme; na parte de trás, uma mulher angustiada está com os braços abertos enquanto que uma garota se apega a seu vestido; e no canto inferior direito um pai está pronto para entregar seu filho, e um homem mais velho olha com compaixão. (Figura retirada de Suleymanname, história ilustrada de Süleyman, o Magnífico, século,  XVI, preservada no Museu do Palácio Topkapi, em Istambul.)

Devshirme

O sistema de devshirme começo junto com a criação do Império Otomano (1299), tendo o seu ápice de 1380 a 1648, sendo abolido por volta de 1730 (durante o sultão Ahmed III).

O que é pior, é que esta tropa de elite, os Janízaros, eram doutrinados a defenderem o sultão até a morte, até mesmo contra os seus povos de origem. Os Janízaros eram temidos devido ao seu barbarismo.

Aparentemente os Janízaros foram formados pela primeira vez pelo terceiro líder turco-otomano (e primeiro a se declarar sultão) Murad I, por volta de 1380, existindo até o final do século XIX. Os janízaros não eram homens livres nem escravos comuns. Eles foram submetidos a uma disciplina rigorosa, e formaram sua própria classe social distinta. Os janízaros tiveram forte influência política e credita-se a eles resistência nos esforços de modernização do exército turco-otomano.

Comentários finais

Escravidão é algo tenebroso. Nos dias de hoje, não se tolera alguém que possa justificar escravidão. Contudo, existem pessoas que fazem tudo para justificar a escravidão que existiu no passado (e mesmo existe ainda) quando cometidas por outras culturas que não a nossa. Isso é um erro.

O islamismo é baseado na escravidão desde os seus primórdios. O fato é que não existem líderes abolicionistas muçulmanos (exceto aqueles que acusam os outros na tentativa de desviar a atenção para os problemas no islão).

Vejamos o exemplo dos mamelucos e dos janízaros. Não existe nenhum registro histórico de muçulmanos denunciando estes sistemas escravagistas. Muito pelo contrário, nos dias de hoje você vai encontrar pessoas dizendo o quão tolerante o islão é por ter dado oportunidade para que crianças cristãs fossem retiradas das suas famílias e oferecidas oportunidades maiores. Quem diz isso, é claro, não gostaria que seu filho ou filha fosse levado para longe e criado com um idioma, costumes e religião diferentes, e que ele voltasse anos mais tarde, irreconhecível, para lhe fazer mal.

Bibliografia

- Enciclopédia Britânica
- The Third Choice: Islam, Dhimmitude and Freedom, Mark Durie
- The Legacy of Jihad, Andrew G. Bostom
- The Preaching of Islam, a history of the propagation of the Muslim Faith. T. W. Arnold


Leia mais sobre escravidão islâmica

- Africano faz considerações sobre escravidão islâmica na África

- A Revolta de Zanj - A Revolta dos Negros

- Escravidão e tratamentos desumanos - Exemplo

- White Gold, o tráfico de escravo branco




5 comentários:

Luciana disse...

Alguém é capaz de me dizer se as traduções desse blog são confiáveis?
http://palestinalivree.blogspot.com.br/

José Atento disse...

Luciana: a resposta é "sim."

Luciana disse...

Obrigada.
Pergunto pois vi um debate no qual as pessoas discordavam da tradução da parte que afirma que a mulher deve apanhar. Um afirmava que a tradução correta do versículo 4:34 seria "castigai" (sem violência) enquanto o outro afirmava que o certo é "batei".

Como não falo árabe, não confiei 100% na tradução que o blog fez desta página: http://islamqa.info/ar/10680

Abdul Haikal disse...

Uma ode à mentira e a desinformação, sobre uma religião de 1.6 bilhão seguidores em 52 países de todos os continentes do planeta!


José Atento disse...

Abdul, escravo de Alá, mostre-nos onde está a mentira e a desinformação se for capaz.