domingo, 1 de março de 2015

Al Qadar: predestinação no seu significado mais rigoroso


José Atento
O islão é baseado em predestinação. Mas predestinação mesmo. Total. No islamismo, o universo inteiro é o domínio de Alá, e nada pode acontecer em seu domínio sem o seu conhecimento e vontade.
Compare isso com o conceito greco-romano, judáico-cristão do livre-arbítrio, e você vai ter dois conceitos civilizatórios básicos totalmente antagônicos. 
Na mitologia greco-romana, os seres humanos lutavam contra os deuses. Com isso, a civilização herdou o aspecto de que o destino está aberto e cada um de nós o escreve. A democracia grega e a república romana foram consequência disso. A organização da sociedade, desde o seu aspecto individual até o seu aspecto coletivo dependia da vontade das pessoas. Junte-se a isso o conceito de livre escolha do cristianismo, e consolida-se uma civilização (a civilização ocidental) que é baseada nas decisões individuais dos cidadãos. As pessoas são responsáveis pelas suas decisões.

Agora, vamos falar do islamismo. No islão, tudo o que acontece já foi escrito por Alá e acontece apenas devido a vontade de Alá. Este princípio chama-se al Qadar, e é composto por 4 crenças (lemas):
1 - A crença de que Alá sabe todas as coisas, em geral e em detalhe, de eternidade a eternidade, independente que isso tenha a ver com suas ações ou as ações de seus escravos.
2 - A crença de que Alá escreveu tudo isso no al-Lawh al-Mahfooz (o Livro dos Decretos).
3 - A crença de que tudo o que acontece só acontece pela vontade de Alá, seja isso relacionado com suas ações ou as ações dos seres criados.
4 - A crença de que todas as coisas que acontecem são criadas por Alá, em sua essência, seus atributos e seus movimentos.
A crença no al Qadar é um dos princípios da fé islâmica. O termo inshalá que se traduz como "se Alá quiser" tem uma conotação diferente do nosso "se Deus quiser", pois ele implica que o que vai acontecer já foi escrito por Alá, 50 mil anos antes da criação do mundo (Muslim, 2653).

Prédestinação x livre-arbítrio: o conceito islâmico

Vamos agora tentar entender este conceito, o de predestinação total, usando os exemplos utilizados na resposta a uma pergunta apresentada do site "Islam Q & A." A pergunta foi: O destino do homem está pré-determinado ou ele tem livre arbítrio?

[...]
O casamento é uma das coisas que Alá decretou. A pessoa com quem você vai se casar é conhecida por Alá: Ele sabe quem ele é, quando ele nasceu, onde e quando ele vai morrer, como ele vai ser para você, e outros detalhes. Tudo isso é conhecido por Alá e Ele é escreveu em al-Lawh al-Mahfooz (o Livro dos Decretos), e vai inevitavelmente acontecer como Alá decretou.
Se Alá decretou que você vai se casar com uma pessoa, mas você escolher outra pessoa, então não importa quanto tempo leve, você vai se casar com essa pessoa. Mas seu casamento com outra pessoa também é decretado, porque não há nada que não seja decretado por Alá. Ele poderá ter decretado para uma mulher se casar com Fulano, filho de Fulano de tal, e ele vem para propor casamento, mas ela se recusa a ele, e se casa com outra pessoa, então ele (o segundo homem) morre ou se divorcia dela, então ela aceita o primeiro. Tudo isso é decretado, e é decretado para ela se casar com Fulano, filho de Fulano, depois de inicialmente recusar-lhe e depois de alguma experiência ou ensaios, etc.
Ele poderá ter decretado para uma mulher que um homem justo irá propor casamento a ela, mas ela vai recusar-lhe e ele nunca vai voltar para ela, e ela vai se casar e viver com alguém que é mais ou menos justo, de acordo com o que Alá decretou.
Porque o homem não sabe o que é decretado por ele, o que ele deve fazer é aderir a Sharia e cumprir os seus mandamentos e proibições, e procurar a ajuda de Alá e orar a Ele para orientação (istikhaarah) sobre todos os seus assuntos, ao passo que a implementação dos meios, um dos mais importantes dentre eles é consultar pessoas sinceras que têm experiência relevante.
Se um homem justo propõe casamento a uma mulher, ela deve orar a Alá para orientação (istikhaarah) e concordar em se casar com ele. Se as coisas correram bem, então, esta é uma indicação de que o que é bom para ela é se casar com ele.
Em conclusão, o homem deve estudar a Sharia de Alá e seguir os mandamentos de Alá, mesmo se ele se sinta relutante, e evitar o que Alá  proibiu até mesmo se isto está ligado a ele. Toda a bondade pode ser encontrada na obediência a Sharia. Alá diz (interpretação do significado):
"Jihad (luta santa, pela causa de Alá) é ordenada para você (os muçulmanos), ainda que você não goste dela, e pode ser que você não goste de uma coisa que é boa para você e que você goste de uma coisa que é ruim para você. Alá sabe, mas você não sabe" [Al-Baqarah 2: 216].
Ele não deve olhar para al-qadar como uma desculpa para ignorar os comandos e fazer coisas proibidas, ao contrário, ele deve olhar para ela de uma forma que vai fazê-lo contente com quaisquer experiências dolorosas acontecerem com ele.
E Alá sabe melhor.
Esta é a razão da apatia, morosidade e marasmo, características tão marcantes do mundo islâmico.



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