sábado, 23 de setembro de 2017

Verdadeiros 'Historiadores das Cruzadas' e Karen Armstrong

Neste artigo, o historiador Andrew Holt fala sobre a distinção entre os historiadores profissionais especializados na história das cruzadas e os curiosos que se passam por historiadores. Enquanto que os primeiros tratam das cruzadas como um evento histórico, com causas e consequências, os últimos se valem de uma narrativa falsa e errada. Dentro deste grupo de historiadores falsos se encontra a escritora Karen Armstrong. 
Historiadores das Cruzadas e Karen Armstrong

Andrew Holt, Ph.D.
1/6/2016. Fonte.

Karen Armstrong é uma antiga freira que escreve amplamente sobre questões políticas e religiosas, incluindo cruzadas e islamismo. Como uma bem conhecida crítica das atitudes modernas do Ocidente em relação ao Islã, Armstrong muitas vezes procurou chamar a atenção para o que ela vê como injustiças históricas cometidas pelos ocidentais no Oriente. Ela lista as cruzadas entre essas injustiças. Por exemplo, em seu trabalho, Islam: A Short History, ela escreve:
Foi, por exemplo, durante as Cruzadas, quando eram cristãos que haviam instigado uma série de guerras sagradas brutais contra o mundo muçulmano, o islamismo foi descrito pelos sábios eruditos-monges da Europa como uma fé intrinsecamente violenta e intolerante, que tinha só conseguido estabelecer-se pela espada. O mito da suposta intolerância fanática do Islã tornou-se uma das ideias recebidas do Ocidente. [pág. 179-180]
De todos aqueles que atualmente escrevem sobre as cruzadas, seu trabalho provavelmente está entre os mais populares e bem conhecidos do público em geral. No meu caso, eu tive casos de estudantes que leram seus livros em outras circunstâncias, e me questionaram sobre contradições aparentes entre o que eles estavam aprendendo nas minhas aulas e o que eles leram em seu livro. Eu também tive uma vez o caso de uma pessoa, que nunca tinha sido meu aluno, depois de ler um artigo que escrevi como convidado para o jornal Florida Times Union, me enviou um e-mail pelo mesmo motivo, buscando esclarecimentos. O motivo dessas contradições é porque eu fui treinado como historiador medieval e trabalho dentro da atual historiografia dominante das Cruzadas, muitas das quais estão decididamente em desacordo com algumas das alegações que Armstrong faz em suas obras.

O historiador das cruzadas  mais influente, e ainda vivo, é inquestionavelmente o professor aposentado da Universidade de Cambridge, Jonathan Riley-Smith. Seu trabalho nos últimos quarenta anos, incluindo mais de uma dúzia de livros, revolucionou, em muitos aspectos, nosso entendimento das cruzadas. Em contraste com a sugestão de Armstrong mencionada acima (para usar apenas um exemplo) de que os cruzados "instigaram" o conflito através da chamada às Cruzadas, Riley-Smith ressalta que "a justificativa original para a cruzada foi a agressão muçulmana".

O que explica essa diferença de opiniões entre Jonathan Riley-Smith, talvez o principal estudioso mundial das cruzadas, e Karen Armstrong, uma das autoras mais populares do mundo sobre o assunto?

Vamos desempacotar esse embrulho.

Do meu ponto de vista, a ideia de que as cruzadas representavam um caso de guerras instigadas pelos cristãos medievais contra os muçulmanos parece sugerir falsamente que um conflito sério entre muçulmanos e cristãos só começou com as cruzadas. Isso ignora um quadro inteiramente diferente daquele que os historiadores das cruzadas frequentemente trabalham quando se considera as origens do movimento das Cruzadas. O historiador especialista nas Cruzadas, Paul F. Crawford, em pelo menos dois ensaios, delineou a história do conflito entre cristãos e muçulmanos logo após a morte de Maomé até os anos cruciais antes da chamada da Primeira Cruzada. Durante o período da Conquista Árabe, dos séculos sétimo ao oitavo, os exércitos muçulmanos conquistaram mais terras (da costa do Portugal moderno ao Hindu Kush) do que o Exército Romano conseguiu no seu auge e talvez dois terços do mundo cristão, incluindo grande parte do Império Bizantino, o Levante, a África do Norte, a Espanha, e até mesmo entrando na França durante o século VIII. O conflito contínuo entre cristãos e muçulmanos ocorreu desde o século oitavo até o final do século XI, e viu o estabelecimento do Emirado da Sicília, ataques à Itália (e duas vezes à própria cidade de Roma) e um encolhimento global significante dos territórios cristãos bizantinos.

No entanto, os eventos do final do século XI são os mais imediatamente relevantes, começando com a derrota dos bizantinos em Manzikert, em 1071. Como resultado dos eventos de Manzikert, os exércitos muçulmanos conquistaram grande parte da Asia-Menor cristã e as áreas vizinhas nos anos  seguintes. As antigas cidades cristãs de Nicéia e Antioquia, entre outros, caíram sob o domínio dos exércitos muçulmanos em 1081 e 1084, com muitos cristãos escravizados ou submetidos ao status de dhimmi (status de 3ª classe concedido a judeus e cristão) como resultado.

Já em 1074, em resposta aos pedidos de ajuda por parte dos bizantinas, na sequência da sua derrota em Manzikert, o Papa Gregório VII propôs liderar pessoalmente uma força de 50 mil cavaleiros ocidentais (europeus) para auxiliar os cristãos do Oriente, mas seus conflitos com o imperador do Sacro Império Romano impediram que isso ocorresse. A controvérsia das investiduras e outras questões no Ocidente retardaram qualquer resposta significativa, mas certamente os cristãos ocidentais estavam bem cientes da situação de deterioração para os cristãos no Oriente, já que os papas e os membros da nobreza ocidental recebiam não apenas a correspondência dos bizantinos, detalhando as atrocidades que ocorriam, mas também relatórios semelhantes e perturbadores de peregrinos e outros viajantes ocidentais (destinados à Terra Santa).

Demorou-se 11 anos, até se chegar ao Concílo de Placência (Piacenza), em 1095, quando os embaixadores bizantinos puderam finalmente chegar a um acordo com o papado recentemente estabilizado de Urbano II para ajudar o Império Bizantino, resultando na convocação da Primeira Cruzada, ao final desse ano, no Concílio de Clermont (Clermont-Ferrand). A Primeira Cruzada resultaria na efetiva restauração do território cristão recentemente perdido, incluindo a cidade de Nicéia e grande parte da Ásia Menor restiruidos para o controle bizantino, com Antioquia e outras regiões sob o controle dos recém-criados estados cruzados.

Voltando a Jonathan Riley-Smith, seu trabalho sobre as cruzadas demonstrou que muitos dos participantes da Primeira Cruzada citavam preocupações sobre o sofrimento dos cristãos no Oriente Médio, e a profanação de lugares sagrados cristãos, ao explicar suas razões para participarem dela. Em seu livro altamente considerado The First Crusade and the Idea of Crusading, Riley-Smith destaca (ver páginas 23-24) a carta de dois irmãos, por exemplo, escrita pouco antes de embarcarem na Primeira Cruzada. Eles contaram que estavam indo na cruzada, em parte, "... para acabar com a corrupção dos pagãos e a imoderada loucura através da qual inúmeros cristãos já foram oprimidos, feitos cativos e mortos com fúria bárbara".

Jonathan Riley-Smith é o mais importante historiador das cruzadas ainda vivo

Na verdade, de acordo com a versão da convocação do Papa Urbano II para a Primeira Cruzada escrita por Robert, o monge, que afirma fornecer um relato de testemunhas do Conselho de Clermont, Urbano II descreveu a profanação da Igreja do Santo Sepulcro e, em detalhes gráficos, a violação e tortura de cristãos nas mãos de seus perseguidores muçulmanos. Peter Frankopan argumenta de forma convincente que esses relatos se originaram da correspondência do Imperador Bizantino Alexios e não foram uma invenção do Papa Urbano II. Além disso, esses relatos de sofrimento cristão nas mãos dos turcos seljúcidas são muitas vezes confirmados em fontes muçulmanas. Assim, os primeiros cruzados viram a Primeira Cruzada, durante a qual pereceram cerca de 1/3 dos cavaleiros que participaram dela, como uma guerra defensiva. Para eles, a Cruzada não foi combatida apenas em defesa do patrimônio de Cristo ou de lugares sagrados cristãos, mas também por causa do sofrimento e humilhações dos cristãos orientais. Este é um componente importante na explicação do nascimento, pelo menos, do movimento das cruzadas.

À luz dessas questões, a sugestão de que a Primeira Cruzada representou uma "instigação" das hostilidades contra o mundo muçulmano pode ser frustrante para um historiador obcecado pela verdade.

Embora seja comum encontrar referências às cruzadas em suas muitas entrevistas e escritos, seu comentário mais extenso vem de seu livro bem conhecido, Holy War: The Crusades and Their Impact on Today’s World (Guerra Santa: as Cruzadas e seu Impacto no Mundo de Hoje). O trabalho tornou-se um exemplar comum em bibliotecas universitárias nos Estados Unidos e na Europa, mas não conheço nenhum historiador, cuja pesquisa se concentra principalmente nas cruzadas (por exemplo, historiadores das cruzadas), que o recomende em seus cursos. Talvez algum algum lugar o faça, mas, de todo modo, não é algo típico.

Capa do livro de Karen Armstrong

Para que o leitor não pense que estou sozinho em expressar preocupações, muitos outros historiadores das cruzadas comentaram publicamente sobre o trabalho de Armstrong. Um erudito, o Dr. Thomas Madden, professor e ex-presidente do Departamento de História da Universidade de St. Louis e um dos principais estudiosos das cruzadas nos EUA, referiu-se com caridade à Guerra Sagrada de Armstrong como "bem redigida, mas não familiarizada com as atuais pesquisas ou fontes medievais". Em outra ocasião, o Dr. Madden descreveu o trabalho de Armstrong em termos mais fortes, quando notou:
Originalmente escrito em 1988, este livro foi relançado em 1991 na sequência da Guerra do Golfo e agora fez outra aparição desde os ataques de 11 de setembro. Pobremente pesquisado e escrito, este livro é em grande parte um exercício na retórica moderna da esquerda sobre sensibilidade, tolerância e os males da civilização ocidental. Sua "visão tripla" é borrada por uma abordagem equivocada do islamismo e do judaísmo e uma hostilidade absoluta ao catolicismo.
O altamente respeitado e atual estudioso das cruzadas Dr. James Powell (professor emérito da Universidade de Siracusa) fez comentários semelhantes sobre a qualidade da erudição de Karen Armstrong em múltiplas ocasiões. Em 1995, ele escreveu:
Recentemente, a escritora popular Karen Armstrong voltou-se para a cruzada na Guerra Santa: as cruzadas e seu impacto no mundo de hoje (Nova York, 1991). Embora ela saliente que seus próprios antecedentes e interesses estão no campo da religião, a maior parte do livro é dedicada a comparações jornalísticas da situação do Oriente Próximo moderno e do Oriente Médio com o momento das cruzadas. Como muitas dessas obras, ela argumenta por um tipo de continuidade histórica que tem pouca semelhança com o estado atual das coisas nessas regiões. O que é de particular interesse para este ensaio, no entanto, é o grau em que ela mantém a visão de  fanatismo religioso subjacente às cruzadas. Sua visão é meramente a versão do final do século XX, pós-moderna e um pouco gnóstica, de muitas críticas anteriores dos ocidentais como fanáticos e os muçulmanos como tolerantes ... Tudo isso é entrelacado com a leitura de algumas das melhores literaturas recentes sobre o assunto que dificilmente apoia suas opiniões.
Para adicionar à análise de Powell aqui, gostaria de notar que muitos grupos terroristas islâmicos modernos, incluindo o Estado islâmico e a Al Qaeda, há muito referenciam as cruzadas medievais na sua propaganda para argumentar que os esforços modernos no Oriente Médio representam a continuação de tal histórico de agressão. Armstrong ao argumentar que há continuidade entre as cruzadas e eventos medievais no Oriente Médio moderno, idéia que Powell e outros historiadores das cruzadas rejeitam, ou sugerir que a história das hostilidades entre cristãos e muçulmanos foi instigada pelos cristãos durante as cruzadas, alimenta de forma irresponsável e imprecisa a propaganda extremista moderna e serve apenas para inflamar ainda mais as tensões modernas.

Então, em 1999, Powell comentou ainda ...
Alguns de vocês leram o artigo em uma revista recente do New York Times intitulada "The Crusades Even Now". O autor é uma escritora popular bem conhecida sobre temas religiosos, Karen Armstrong. Esse artigo resume as tensões, os preconceitos e a bagagem emocional que cercam a ideia da Cruzada. Como história, é infelizmente menos bem sucedido. Com a intenção de ressaltar "lições" do passado, sua mensagem segue mais a tradição de um sermão moral do que um esforço para entender o passado.
Um líder no estudo das Cruzadas, Alfred J. Andrea (Professor emérito da Universidade de Vermont e ex-Presidente da Associação de História Mundial) também comentou sobre a (falta de) erudição da Armstrong.
Karen Armstrong, Guerra Santa: as cruzadas e seu impacto no mundo de hoje (New York, Doubleday, 1991) argumenta que "as Cruzadas foram uma das causas diretas do conflito no Oriente Médio de hoje" (p. Xiii). Seja cuidadoso. O livro é altamente partidário, considera apenas o pensamento atual, e contém inúmeros erros factuais, alguns escandalosos.
Também perguntei a outros historiadores das cruzadas sobre seus pontos de vista sobre o trabalho de Armstrong sobre as cruzadas. Eles incluíram o Dr. Dan Franke do Richard Bland College, o Dr. Paul F. Crawford da Universidade Califórnia da Pensilvânia e o Dr. Vincent Ryan da Faculdade Aquinas. Aqui estão os seus pontos de vista expressos em correspondência privada e citados com a sua permissão.

Perguntei a Dan se ele cita Armstrong em qualquer uma das aulas ele respondeu:
Não, porque tenho livros melhores para os meus propósitos. A introdução muito curta de Christopher Tyerman, a nova história concisa de Thomas Madden ou a curta história de Helen J. Nicholson fornecem um ponto de entrada igualmente acessível para as cruzadas e são muito mais confiáveis.
Quando perguntei a Paul sobre sua opinião sobre o trabalho de Armstrong, ele disse:
Karen Armstrong é uma historiadora do pop, cujas obras, embora legíveis e atraentes, são fracas quanto à fundamentação factual em fontes históricas atuais, já que demonstram  preconceito anti-católico. Quando ela lida com as cruzadas, seu desdém e desprezo por esse assunto são evidentes, e é muito difícil tratar um assunto histórico com objetividade e nuance adequados quando se traz esse tipo de atitude à pesquisa. Que o resultado do seu trabalho é infeliz e inútil demais talvez não seja surpreendente.
E Vincent, abordando argumentos particulares feitos por Armstrong, observou:
Para alguém que pensa com frequência sobre o assunto, a ignorância de Karen Armstrong sobre as Cruzadas é impressionante. No entanto, nada pode superar o argumento que ela faz na Guerra Sagrada atribuindo às Cruzadas uma influência decisiva no conflito no Oriente Médio moderno. No cerne desta tese é o apoio dos EUA ao estado de Israel, que ela consegue ligar de volta às Cruzadas, porque os cruzados eram peregrinos e as pessoas que desempenharam um papel fundamental no início da colonização inglesa da América do Norte se chamavam "peregrinos" (!). De acordo com Armstrong, isso demonstra "que um entusiasmo cruzado não está apenas inserido profundamente na identidade americana e crucialmente formativo na história americana, mas também que existe uma afinidade americana natural com o sionismo" (p. 472). Essa análise pseudo-histórica parece mais útil para um romance potencial de Dan Brown do que para oferecer qualquer visão legítima sobre as Cruzadas e seu impacto real.
Embora muitos historiadores das cruzadas encontrem problemas com o comentário de Armstrong sobre as cruzadas, a voz da ex-freira parece ter um impacto maior nas compreensões populares. Tenho certeza de que os leitores e fãs de seu trabalho podem encontrar esta postagem no blog e argumentem que seu trabalho sobre a religião em geral, ou o Islã em particular, seja útil de muitas outras maneiras. Eu não tenho tempo ou energia para entrar nesses tópicos aqui, mas à luz dos inquéritos que às vezes recebo sobre seus vários comentários relacionados às cruzadas, os leitores devem saber que os historiadores das cruzadas, têm, pelo menos, muitas preocupações sobre a qualidade do trabalho dela.

Dr. Andrew Holt é Professor de História no Florida State College em Jacksonville. Ele também ensina história para cursos de pós-graduação online para o Norwich University - The Military College of Vermont. (Leia mais)


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